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III (continuação)
Não ignoro que esses dois poemas são duas pérolas da poesia amorosa universal; que são um novo sentido do amor e uma música nova das emoções amorosas. Caeiro podia ser infiel aos seus princípios; nunca podia ser inoriginal. Assim esses poemas de amor são únicos na poesia amorosa. Reparo que são assim sem por isso os admirar. Ponho mais alto, e a maior preço, a minha admiração.
O próprio estado amoroso, embora natural, não é o estado próprio para a fixação de impressões que a arte é, salvo no caso dos raros artistas que conseguem ter constantemente mão em si, e a quem a inteligência tem sempre rédea na emoção. Mas esses mesmos, por certo, não ordenam como colunas de algarismos as suas emoções sexuais.
O temperamento metafísico de Caeiro menos apto estava a receber as emoções amorosas, que, sobre serem já de si perturbadoras, mais o eram para um temperamento em que eram estranhas. Daí a momentânea abdicação dos seus princípios e da sua objectividade nativa nos dois poemas de O Pastor Amoroso. Como não há-de um amoroso olhar para dentro de si?
Passo com desgosto sobre estes dois poemas, e chego, sem grande acréscimo de alegria, aos fragmentos vários, completos ou incompletos, com que se fecha a colecção da obra de Caeiro.
A viciação mental produzida por esse episódio amoroso, que, sobre ter sido estéril, foi perturbador, e cujos detalhes desconheço e desejo não conhecer, prosseguiu no espírito do poeta. Ficou o rasto viciado. Nunca mais, salvo em evanescentes episódios poéticos, voltou aquela serenidade suprema, aquela visão de deus, a que, libertando-se pouco a pouco das acreções espirituais crististas, o poeta se havia liberado no decurso do caminho a que chamou O Guardador de Rebanhos.
Escuso de insistir, porque, tendo sobradamente explicado em que consiste a obra de Caeiro, implicitamente expliquei em que degenerou, quando degenerou. É-me grato ser-me escusado insistir em um ponto cuja meditação me magoa.
Alberto Caeiro é, cremos, o maior poeta do século vinte, porque é o mais completo subversor de todas as sensibilidades diversamente conhecidas, e de todas as fórmulas intelectuais variamente aceites. Viveu e passou obscuro e desconhecido. É esse (dizem os ocultistas) o sinal dos Mestres.
Os próprios Gregos da vera Grécia, criadores do Objectivismo, não atingiram o Objectivismo Transcendente do assombroso português, a quem a Fama nada deu, porque ele nada lhe pediu; nem, se lhe pedira, ela, (hoje tão injustamente pródiga) saberia que dar-lhe.
A obra de Caeiro é mister que seja lida com uma atenção nova. Tudo é novo ali. Nem a substância intelectual, nem a arte das imagens, nem a própria figuração verbal têm precedentes nem alianças. Só a forma se ressente (...) da nossa época. Os inovadores, por grandes que sejam, não podem ser tudo. E os grandes homens, ou poetas, são da sua época só pelos seus defeitos.
A nossa gratidão vai para os senhores António Caeiro da Silva e Júlio Manuel Caeiro, a cuja cortesia devemos a cedência destes poemas. A obra do Mestre compõe-se além de estes, que formam o seu único livro inteiro, de «outros poemas e fragmentos». Confiamos em que os seus detentores não tardarão em dá-la à publicidade, senão à celebridade, porque essa só a obtêm (hoje), parece, os que a não merecem.
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