Partilhar
1 pessoa gosta
Guardar nos Favoritos
Comentar
|
IV
Chamaram-no os Deuses, ainda tão novo, à região inferior onde a mágoa não chega e o prazer não desce. Sem duvida que o fizeram pelo dom evidente da sua sabedoria não perfeita, mas mais perfeita que a nossa. Aqueles actores (...) de que somos apenas os títeres, sabem em sua razão mais lata, por que influxo das estrelas, baixou tão cedo à terra-origem o seu filho que mais a amou. Tudo nos é velado, sonho, entre um sono e outro sono, esta curta visão radiosa do perfeito e incompleto universo.
Por detrás de todas as variações permanece, inalterável substância de uma forma mutante, um conceito do universo especialmente pagão, e que as modas não atingem. É difícil fazer ver isto – como qualquer outra coisa – a quem o não sente. A indiferença à dor, o aceitamento orgulhoso, posto que passivo, do destino, não bastam para formar um estóico: falta o estoicismo. A busca, embora moderada, dos prazeres, céptica para com outra espécie de benefícios a esperar do mundo, não é suficiente para que o seu culto mereça o nome de epicurista: falta o epicurismo. Do mesmo modo a aceitação de muitos deuses – que a outra coisa não monta a hagiologia do cristismo católico, sendo suficiente para sintoma de politeísmo, não basta para que este politeísmo se possa considerar como idêntico ao dos pagãos: falta o paganismo.
Em Alberto Caeiro vemos a substância sem os atributos. Caeiro não tem a sensibilidade pagã, porque não vive na era pagã. O que há nele de maravilhoso é que também não tem a sensibilidade cristã. Isto o distingue de todos quantos – desde a Renascença até hoje – quiseram nomear-se pagãos.
|
|