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III

Em que é que este homem pode ser aquilo que eu disse que ele era – o reconstrutor do sentimento pagão?
O caso só parecerá confuso a quem, como o geral dos meus contemporâneos, como, aliás, o geral dos nossos contemporâneos, de todo ignore qual seja a nova ideativa da atitude característica do paganismo.
Como todos os poetas universais, Caeiro é de uma simplicidade absoluta. Nada, como os seus versos, vive tão longe dos modernos inventores de sensações, dos subtilizadores de sentimentos simples, dos que mastigam a própria alma até a terem que desconhecer – polpa amorfa de sensações indefinidas.
Todos os grandes poetas são simples. E, se são difíceis de compreender, é que a sua simplicidade envolve princípios novos, uma noção nova das coisas, e essa, por nova, que não por confusa, salta fora dos hábitos mentais que condicionam a compreensão.
Acabo como comecei. Alberto Caeiro é um dos maiores poetas do mundo, o maior, por certo, dos tempos modernos. É aquele a quem a crítica chamará um dia o imortal reconstrutor não do paganismo, mas daquele sentimento objectivo do universo que é o que deu vida, sangue e poder a todas as manifestações da ideologia pagã, aquela manifestação que a nossa ignorância e a nossa sensibilidade cristianizada tomou por a alma e a essência do paganismo.
Tão profundo é o seu conhecimento da alma pagã, que os seus poemas, mau grado a sua rítmica irregular, são perfeitamente estatuais. Pareceria, a priori, que poemas sem ritmo nem rima deviam não poder dar uma impressão de conjuntos perfeitos. Não é isto que acontece com os poemas de Caeiro. Parecem traduções para a linguagem humana de poemas escritos no idioma dos Deuses, que na versão conservam o divino equilíbrio, a divina calma, a unidade sobre-humanas de obras de mãos imortais.
Em cada verso reside a despreocupação das nossas coisas passageiras, um curioso e original desprezo do transitório, obtido por um ascetismo estético e não moral; à grega antiga, os olhos postos na beleza que não passa e esquecendo nela o mundo contingente e volúvel.
É, outra vez, verdadeiramente vivo, em carne, o ideal da antiga Hélade. Novamente fitam olhos olímpicos o variado espectáculo do mundo. Novamente uma noção da beleza se forma, que nada tem com a moral, mas que não é formal, como o são todos os pretensos imoralismos modernos, obra eunuca de «estetas» de fingimento Wilde, Gautier, e outros assim, que tinham da antiguidade uma noção artificial e mesquinha.
Os numerosos erros em que temos sido educados por o exemplo de gerações passadas fazem com que seja muito difícil uma reformação do paganismo. O homem, que deseja levar os modernos pela mão, outra vez pelo caminho do Olimpo, tem, não só que desviá-los da senda cristã, o que já é difícil, mas também que tirá-los daqueles falsos atalhos e cursos desviados por onde os têm conduzido os pretendidos renovadores ou sequazes do velho espírito pagão. Quanto em nossos dias se tem dito sobre o paganismo peca por puramente formal, por não atingir, para além das aparências do paganismo, o seu íntimo espírito vivo.
Três foram as interpretações modernas do paganismo; tantos foram os erros sobre o espírito pagão. Primeiro, houve os homens do Renascimento italiano, que não viram no paganismo senão o seu amor pela beleza física, e o seu culto pela perfeição formal. Vieram depois, numa degeneração desses, os homens secos e estreitos que constituíram aquilo a que se chama o «espírito clássico» – e estes do paganismo só viram a perfeição formal, o culto da perfeição; esquecendo já, porque de ordinário eram espíritos verdadeiramente cristãos, o culto da beleza em que esse outro assentava, de que ele não era, verdadeiramente, senão uma parte. Daí a seca e estéril legião dos homens que deram, durante longos anos, leis literárias ao mundo Daí os Petrarcas e os (...). Daí a plebe estética dos Boileau, odiosa para sempre. Em seu medíocre (...), tomaram por norma um equilíbrio, uma gracionalidade vazia; não cuidando de que, para os antigos, tal equilíbrio, tal medida fora, não uma coisa definida, uma primeira regra da estética, porém um limite, um freio posto à íntima e desordenada exuberância que há em todo o sentimento da beleza. Não viram que a perfeição não é a beleza, senão uma parte dela; que a fronteira não é a nação, mas o que a define como tal. (Eles assemelharam-se a imperadores desterrados que pusessem fronteiras em desertos cuidando ter abarcado muito quando muito incluíam).
Não menos estreita e falsa se bem que de outra forma é a ideia moderna do paganismo, que devemos aos esforços mal-empregados de uma seita de artistas que começou com Gautier e achou o seu maior (...) na pessoa de Oscar Wilde. Aqui o género de erro é outro.
Um Wilde é, na realidade, tão estreito e seco como um Boileau. Hoje, é difícil vê-lo, mas o futuro longínquo não deixará de notá-lo. Todo espírito que nasceu pagão o nota imediatamente.

Não quero dizer que os gregos pensassem como românticos e executassem como estatuários. Não havia, não podia haver, essa duplicidade no seu espírito. A acção de conceber e de executar era já assim nos espíritos. O modo de conceber uma obra de arte é já o modo de executá-la.
Ao homem extraordinário, cujos poemas, não só inéditos, mas também incompletos se coligem na presente edição, deve o público que porventura o leia, um interesse que, podendo ser que ele lho não dê sem esclarecimento prévio, desejo, nestas linhas de prefácio, iniciar como, e porquê, merecido.
À primeira vista, a obra de Caeiro, aqui inteiramente coligida, não parece divergir, salvo em pontos secundários, das elucubrações métricas de tantos poetas nossos coevos, e um pouco anteriores, em que a principal característica de inspiração é a indisciplina e o individualismo das sensações e dos sentimentos, e o mais patente distúrbio da dicção o caso libérrimo da linguagem, que, liberta não só da rima como também do ritmo regular, se dá como seguindo o ritmo interior, a sequência desordenada das imagens que surgem no espírito.
Assim, será o americano Whitman, o belga Maeterlinck e, na nova poesia (...) o francês Jammes. Mas não há semelhança, embora no mais extremo do extremo, entre Caeiro e estes.
A estes autores modernos convém aquela designação de sensacionistas, que alguns poetas do nosso Orpheu escolheram para designar-se. São pessoas que não têm outro intuito artístico, que não o de exporem as suas sensações, e isto sem mesmo aquela disciplina rudimentar que deriva do emprego das formas convencionais da literatura em verso. Não têm a disciplina duma teoria estética que transcenda os seus temperamentos, nem a duma teoria religiosa cujos lemas excedam os seus caprichos, nem a de uma doutrina filosófica que, através das suas inteligências, subordine as suas sensibilidades.
A disciplina é sempre exterior, embora nem sempre aplicada de fora. As leis do meu temperamento nunca podem constituir uma disciplina minha. Uma disciplina é um princípio regrador da vida e da obra, que a inteligência aceita como verdadeira, e a sensibilidade aceita por boa. Sem a acção sobre tanto sensibilidade como inteligência, não há disciplina: se a inteligência aceita e a sensibilidade não, há um mero diletantismo; se o inverso, há um conflito esterilizante, anarquizador. Os românticos eram cristãos da sensibilidade e pagãos do pensamento; os neoclássicos eram cristãos do pensamento e pagãos da sensibilidade. Por isso a arte de uns e de outros resultou débil e, desde nada, caduca.
A Revolução Francesa foi um renascimento do Cristianismo. O seu célebre triplo lema é o lema substancial da sensibilidade cristã. Liberdade, Igualdade, Fraternidade outros não são os ensinamentos essenciais do Evangelho jesuísta.
Toda a nossa civilização é a revolta do paganismo contra o cristianismo.
Começando na filosofia Rousseau passou à política e daí à sensibilidade geral.
O paganismo reagiu parcialmen