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Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
Sei os teus seios. Sei-os de cor.
Para a frente, para cima, Despontam, alegres, os teus seios.
Vitoriosos já, Mas não ainda triunfais.
Quem comparou os seios que são teus (Banal imagem) a colinas!
Com donaire avançam os teus seios, Ó minha embarcação!
Porque não há Padarias que em vez de pão nos dêem seios Logo p'la manhã?
Quantas vezes Interrogaste, ao espelho, os seios?
Tão tolos os teus seios! Toda a noite Com inveja um do outro, toda a santa Noite!
Quantos seios ficaram por amar?
Seios pasmados, seios lorpas, seios Como barrigas de glutões!
Seios decrépitos e no entanto belos Como o que já viveu e fez viver!
Seios inacessíveis e tão altos Como um orgulho que há-de rebentar Em deseperadas, quarentonas lágrimas...
Seios fortes como os da Liberdade -Delacroix-guiando o Povo.
Seios que vão à escola p'ra de lá saírem Direitinhos p'ra casa...
Seios que deram o bom leite da vida A vorazes filhos alheios!
Diz-se rijo dum seio que, vencido, Acaba por vencer...
O amor excessivo dum poeta: "E hei-de mandar fazer um almanaque da pele encadernado do teu seio" (Gomes Leal)
Retirar-me para uns seios que me esperam Há tantos anos, fielmente, na província!
Arrulho de pequenos seios No peitoril de uma janela Aberta sobre a vida.
Botas, botirrafas Pisando tudo, até os seios Em que o amor se exalta e robustece!
Seios adivinhados, entrevistos, Jamais possuídos, sempre desejados!
"Oculta, pois, oculta esses objectos Altares onde fazem sacrifícios Quantos os vêem com olhos indiscretos" (Abade de Jazente)
Raimundo Lúlio, a mulher casada Que cortejaste, que perseguiste Até entrares, a cavalo, p'la igreja Onde fora rezar, Mudou-te a vida quando te mostrou ("É isto que amas?") De repente a podridão do seio.
Raparigas dos limões a oferecerem Fruta mais atrevida: inesperados seios...
Uma roda de velhos seios despeitados, Rabujando, A pretexto de chá...
Engolfo-me num seio até perder Memória de quem sou...
Quantos seios devorou a guerra, quantos, Depressa ou devagar, roubou à vida, À alegria, ao amor e às gulosas Bocas dos miúdos!
Pouso a cabeça no teu seio E nenhum desejo me estremece a carne.
Vejo os teus seios, absortos Sobre um pequeno ser
Ao lado do homem vou crescendo
Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente
Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas
Ao lado do homem vou crescendo
E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.
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