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Eugénio de Andrade | Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos.
É urgente o amor. É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz impura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer.
Entre os teus lábios é que a loucura acode, desce à garganta, invade a água.
No teu peito é que o pólen do fogo se junta à nascente, alastra na sombra.
Nos teus flancos é que a fonte começa a ser rio de abelhas, rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos é que a areia queima, o sol é secreto, cego o silêncio.
Deita-te comigo. Ilumina meus vidros. Entre lábios e lábios toda a música é minha.
Diz homem, diz criança, diz estrela. Repete as sílabas onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança. Onde a beleza é mais nova.
É na escura folhagem do sono que brilha a pele molhada, a difícil floração da língua.
Música, levai-me:
Onde estão as barcas? Onde são as ilhas?
Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe a barcos e bruma.
No brilho redondo e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
A boca,
onde o fogo de um verão muito antigo
cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento para ser ave,
e cantar.
Levar-te à boca, beber a água mais funda do teu ser -
se a luz é tanta, como se pode morrer?
Sê tu a palavra
1. Sê tu a palavra, branca rosa brava.
2. Só o desejo é matinal.
3. Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria.
4. Morre de ter ousado na água amar o fogo.
5. Beber-te a sede e partir - eu sou de tão longe.
6. Da chama à espada o caminho é solitário.
7. Que me quereis, se me não dais o que é tão meu?
Colhe todo o oiro
Colhe todo o oiro do dia na haste mais alta da melancolia.
Ainda sabemos cantar, só a nossa voz é que mudou: somos agora mais lentos, mais amargos, e um novo gesto é igual ao que passou.
Um verso já não é a maravilha, um corpo já não é a plenitude.
Nunca o verão se demorara assim nos lábios e na água - como podíamos morrer, tão próximos e nus e inocentes?
Devias estar aqui rente aos meus lábios para dividir contigo esta amargura dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto, Só no teu rosto e nunca em mais nenhum
De palavra em palavra a noite sobe aos ramos mais altos
e canta o êxtase do dia.
Foi para ti que criei as rosas. Foi para ti que lhes dei perfume. Para ti rasguei ribeiros e dei ás romãs a cor do lume.
Húmido de beijos e de lágrimas, ardor da terra com sabor a mar, o teu corpo perdia-se no meu.
(Vontade de ser barco ou de cantar.)
Sê paciente; espera que a palavra amadureça e se desprenda como um fruto ao passar o vento que a mereça.
Hoje roubei todas as rosas dos jardins e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.
À breve, azul cantilena dos teus olhos quando anoitecem.
Eram de longe. Do mar traziam o que é do mar: doçura e ardor nos olhos fatigados.
A raiz do linho foi meu alimento, foi o meu tormento.
Mas então cantava.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos. Era no tempo em que o teu corpo era um aquário. Era no tempo em que os meus olhos eram os tais peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade: uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já não se passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus
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