
A Arrábida é para todos ou só para alguns?
Vinte anos atrás quando deambulava pela serra só a inclinação do
terreno me limitava os passos. Agora são os muros, os cães e o arame farpado. Na
cidade vivemos no meio do betão e dos horizontes cerceados. Dentro em
breve nem para a serra poderemos fugir. E isto para que deputados e
outros "importantes" tenham uma casa de fim-de-semana com vista para o
mar. A construção não pára. No entanto, é uma área protegida, reserva natural, em breve património mundial.
Mas amanhã vai-se construir uma mansão porque estava um tijolo no chão.
Depois de amanhã o Parque e Câmara vão olhar para o lado enquanto se
constrói mais uma vivenda de luxo clandestina. E assim, dia a dia se
torna a serra numa "coutada" particular.
Se quem tem o poder de parar isto não o faz, temos nós que arranjar
forma de o fazer! |
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Estas "casinhas" não dão cabo da serra só por
a polvilharem de telhados e piscinas e carros e muros. Contribuem também
em grande medida para que ela arda. Os bombeiros primeiro protegem as
pessoas, depois as casas e só depois tentam impedir a propagação das
chamas.
Quantos hectares arderam porque os bombeiros estavam a proteger as
vivendas dos senhores deputados? A serra é de quem afinal?
Quando agora passo pela serra, por um lado dói-me a alma, por outro sinto uma raiva a crescer-me nos dedos...
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Alguns excertos
de jornais:
O
vice-presidente da Quercus aponta ainda o dedo a uma questão “essencial” que é o
ordenamento no Parque Natural da Arrábida. O modo como decorreu o combate às
chamas “só demonstra que não pode haver mais construção nesta zona protegida”.
“Não está em causa a actuação dos bombeiros”, refere, pois, em primeiro lugar,
“devem ser salvaguardadas pessoas, casas e bens”. No entanto, “se não houvessem
construções tão dispersas”, os bombeiros podiam “concentrar esforços para salvar
a vegetação única da serra.
O maior prejuízo foi de facto ambiental porque arderam 740 hectares da mata
atlântica protegida.
A Comissão
Municipal de Palmela para a Protecção da Floresta Contra Incêndios também
concluiu, na semana passada, que houve uma intervenção eficaz das corporações de
bombeiros, salientando o facto de não se terem registado vitimas e de não haver
nenhuma casa ardida.
Nobre Guedes
quer avançar com a demolição de milhares de casas ilegais em vários pontos do
país, com particular incidência na zona do Parque Natural da serra da Arrábida.
O processo atrasou-se devido à necessidade de estudar os aspectos jurídicos
já que, tal como explicou ao EXPRESSO fonte do gabinete do ministro, «há
situações em que, apesar de se tratar de construção clandestina, já existem
direitos adquiridos». As zonas da serra da Arrábida, em Setúbal, e da Ria
Formosa, no Algarve, são aquelas em que existe maior concentração de casas
clandestinas. (Setembro de 2004)
A lei permite
"reconstruir" edifícios dentro do Parque, vejam como esta lei absurda é usada.
No limite pode-se fazer um condomínio dum tijolo. Excerto do Público de
9-Jan-2003:
Herman José apresentou um projecto que falava na reconstrução de cinco
edifícios, com uma área total de 189,9 metros quadrados, com vista a albergar
visitas, mas apenas dois deles, com um total de 51 metros quadrados de área, têm
registo predial. Ou seja, apenas estes poderiam ser reconstruídos.
Mesmo assim, o Parque Natural e a autarquia acabaram por autorizar quatro
construções com 174 metros quadrados.
"O responsável da Associação P'la Arrábida
teme ainda que vá adiante um empreendimento turístico no Portinho da Arrábida
onde, alegadamente, foi comprado um terreno por um milhão e meio de contos.
Carlos Sousa, presidente da Câmara de
Setúbal, em declarações ao JN, afirma que não tem conhecimento de qualquer
projecto imobiliário para o local. Contudo, o JN apurou, junto de Francisco
Ferreira, da Quercus, que o Plano Director Municipal de Setúbal deixa a
porta aberta a um empreendimento turístico
no Portinho da Arrábida." |