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Gustavo Adolfo Bécquer | Enquanto houver uns olhos que reflectem outros olhos que os fitam, enquanto a boca responda a suspirar aos lábios que suspiram, enquanto sentir-se possam ao beijar-se duas almas confundidas, enquanto exista uma mulher formosa, haverá poesia!
Se receoso se turba na alta noite teu peito em flor, ao sentires um hálito em teus lábios, abrasador, lembra-te que invisível ao teu lado respiro eu.
Hoje sorriem-me a terra e os céus; sinto no fundo da minha alma o sol; eu hoje vi-a..., vi-a e ela olhou-me... Creio hoje em Deus!
Por um olhar, um mundo; por um sorriso, um céu; por um beijo...não sei que te daria eu.
Sobre o regaço tinha o livro bem aberto; tocavam em meu rosto seus caracóis negros. Não víamos as letras nem um nem outro, creio; mas guardávamos ambos fundo silêncio. Por quanto tempo? Nem então pude sabê-lo. Sei só que não se ouvia mais que o alento, que apressado escapava dos lábios secos. Só sei que nos voltámos os dois ao mesmo tempo, os olhos encontraram-se e ressoou um beijo.
Espreitava em seus olhos uma lágrima, e em meus lábios uma frase a perdoar; falou o orgulho, o seu pranto secou, senti nos lábios essa frase expirar. Eu vou por um caminho, ela por outro; mas, ao pensar no amor que nos prendeu, digo ainda: porque me calei aquele dia? E ela dirá: porque não chorei eu?
Quando mo vieram contar, senti o frio de uma lâmina de aço nas entranhas; apoiei-me no muro e um momento perdi a consciência de onde estava. A noite abateu-se em meu espírito; em ira e piedade afogou-se-me a alma; e então compreendi porque se chora, e então compreendi porque se mata!
Passou a noite de sofrimento...a custo; pude balbuciar breves palavras... Quem me deu a notícia?...Um bom amigo... Fazia-me um favor. Rendi-lhe graças.
Deixei a luz a um lado e numa beira da cama em desalinho me sentei, sombrio, mudo, os olhos imóveis cravados na parade. Que tempo estive assim? Não sei; ao deixar-me a horrível embriaguez da dor já expirava a luz, e na varanda ria o sol.
Não sei tão-pouco em tão terríveis horas em que pensava ou que passou por mim; recordo só que chorei e blasfemei e que naquela noite envelheci.
Levai-me por piedade onde a vertigem com a razão me arranque a memória. Por piedade! Tenho medo de ficar com a minha dor a sós!
Deus meu, tão sozinhos que ficam os mortos!
É um sonho esta vida, mas um sonho febril de um instante único. Quando dele se acorda, vê-se que tudo é só vaidade e fumo... Oxalá fosse um sonho bem profundo e bem longo, um sonho que durasse até á morte!... Eu sonharia com o meu e teu amor.
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