1. Dança da terra
2. Em toda a parte
3. Por todo este mundo
4. O Lume Tablatura
5. Lisboa de mil amores
6. Outro dia que amanhece
7. Canção de Macau
8. Por esta cidade fora
9. Ficar mais perto
10. Procura por mim
11. Acrobata

 

Dança da terra

Ai esta terra arde
É uma fogueira
Não há quem a salve
De ruir inteira

Ai o sonho morre
Amordaçado
Já nem parece
Ter-se sonhado

Ai esta terra lembra
Cada madrugada
Em que o desalento
Tem sabor a nada

Ai o sonho morre 
Desencantado
Já nem parece
Ter-se guardado

Mas no vento morno
Que vem do mar
A lua ainda chama
Prá gente dançar
A lua ainda dança
Prá gente cantar

Ai esta terra queima
É uma ferida aberta
Rasgada no peito
Onde a dor aperta

Ai o meu filho chora
E eu não chego ao mar
Só nos seus olhos
Posso naufragar

Mas no vento morno
Que vem do mar
A lua ainda chama
Prá gente dançar
A lua ainda dança
Prá gente cantar

Em toda a parte

A distância é um fogo
Onde vou chegar
Num abraço fechado
Para te levar

Por campos abertos
Por onde puder
Levar-te por dentro
Pra não te perder

Nem com mil tormentas
Que arrasem o mundo

Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
Hei-de lembrar-me de ti

Por outros caminhos
Hei-de vaguear
Num abraço fechado
Para te levar

E há uma canção
Que um dia aprendi
Eu hei-de cantá-la
A pensar em ti

Em qualquer lado
Onde quer que eu vá
Levo no corpo o desejo
De te abraçar
Em toda a parte
Onde quer que o sonho me leve
hei-de lembrar-me de ti

Por todo este mundo

Saiu à rua, indiferente
Seguiu pra longe
Longe do olhar de toda a gente
Na luz intacta da madrugada
Seguiu sem norte e sem estrada
Descalça na terra molhada

Despiu o corpo e o pensamento
Seguiu o vento
Esqueceu a mágoa de acabar
E o tempo perdeu-se do tempo
E o chão raso fez-se mar
No mundo que somos por dentro

Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir

Segui o rasto do calor
Na areia quente
O sol doía como o fogo
Incendiou a cor do dia
Levou no corpo a ventania
E um beijo roubado do amor

Por todo este mundo
Enquanto o sonho existir
E nos levar até ao fim
De tudo o que há pra sentir
Tudo o que há pra sentir.

O Lume Tablatura

Vai caminhando desamarrado
Dos nós e laços que o mundo faz
Vai abraçando desenleado
De outros abraços que a vida dá

Vai-te encontrando na água e no lume
Na terra quente até perder
O medo, o medo levanta muros
E ergue bandeiras pra nos deter

Não percas tempo
O tempo corre
Só quando doi é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar

Liberta o grito que trazes dentro
E a coragem e o amor
Mesmo que seja só um momento
Mesmo que traga alguma dor
Só isso faz brilhar o lume
Que hás-de levar até ao fim
E esse lume já ninguém pode
Nunca apagar dentro de ti

Não percas tempo
O tempo corre
Só quando doi é devagar
E dá-te ao vento
Como um veleiro
Solto no mais alto mar

Lisboa de mil amores

Já um escuro vem no horizonte
Ou a luz se perde do olhar
São os campos perdidos e os montes
Que se estendem pela noite devagar

São tantos os caminhos e os dias
Tantos como a saudade que se tem
Talvez um sabor leve de maresia
Talvez lembrança do sabor de alguém

Ai Lisboa estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido

Será do luar o brilho intenso
Será do olhar de quem eu quero
Que faz ir-se perdendo ao longe o escuro
E faz ir-se calando o desespero

Enquanto o dia vai
Enquanto a noite vem
E um desassossego acorda alguém
Uma canção distante
Lembra o sonho e outro olhar
Ai se toda a saudade
Pudesse enfim acalmar

Ai Lisboa estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido

Outro dia que amanhece

São braços, abraços estreitos
Gente que vai e que vem
Gente parada a ver passar

São as imagens das viagens
De quem foi pra muito longe
De quem só sonhou um dia lá chegar

São navegantes em terra
Com a alma a velejar
São soldados sem guerra
Que atiram contra fantasmas
Que não podem alcançar
Que não vão poder matar

Nas ruas ficam as marcas
Da coragem e do medo
Nas sombras da madrugada
Há quem fuja ao seu degredo
E grite a negro nas paredes

São braços, abraços estreitos
Que se dão ou que se vendem
Nos atalhos da má sorte

É a vida a contorcer-se
Ao sabor da multidão
É a falta de coragem
Que mata mais do que a morte
Mata antes de se morrer

São navegantes rio acima
Rua abaixo sem um norte
É gente de pouca idade
Que aprendeu cedo a saudade
Do amor e de outra sorte

Nas ruas ficam as marcas
Do que alegra ou entristece
O grito de quem se cala
Quando outro dia amanhece
Outro dia que amanhece nas ruas

Canção de Macau

Mil aromas enleados
Num calor que se abandona
Mil sabores emaranhados
Numa noite sempre longa

Noutras ilhas, noutro vento
Que é tão denso como o lume
Navegando um sentimento
Uma faca de dois gumes

Aprendo o que é regresso
E despedida
Que a distância se guarda
Até ao fim
Nesta saudade estranha
Assim sentida
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim

Rumo incerto, mil palavras
O Oriente no olhar
Que desenha outro horizonte
Da paixão de desvendar

A neblina dos sentidos
A nudez do amor de alguém
E aquilo que se sente
que não é de mais ninguém

Aprendo o que é regresso
E despedida
Que a distância se guarda
Até ao fim
Nesta saudade estranha
Assim sentida
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim
Longe é sempre
Um lugar dentro de mim

Por esta cidade fora

Nem sempre esta cidade
Anoitece assim
Perdida na maresia
E no nevoeiro
Nem sempre se sabe
Do fim do sonho
Que se guarda inteiro

Às vezes é preciso
Desfazer o nó
Desancorar por dentro
Quem se amou
Deixar seguir
Abrir os braços
E ver o que ficou

A cor da fogueira
É como um barco aceso ao largo
Sem fim nem fronteira sem correr
A companhia é o teu riso
É não deixar esta noite morrer

Há sempre nesta cidade
Um sabor a mar
O som de uma guitarra
E de um fado
Que se enleia no vento assim
Só isso quero
Guardar para mim

A cor da fogueira
É como um barco a ir embora
Sem fim nem fronteira
Quando a noite nos acolhe
À conversa sem ter pressa
Por esta cidade fora

Ficar mais perto

Depois talvez construir
Ou navegar os dias
Pressentir
Percorrer os caminhos que houver
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser

Deixa-me assim refazer
Ou desfazer os rumos
Descobrir
Entender o destino que vier
Porque há sempre uma maneira
De mudar
O que se não quer

Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor

Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira 
de recomeçar

Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor

Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De mudar o que não se quer
Há sempre uma maneira
De recomeçar

Procura por mim

Quando for já logo à noite na praia
Com o sol a derreter-se enfim
Procura por mim
Com o vento por saia
E em lugar de suor o sargaço.

Eu estarei quieto e assim sozinho
Cheio das dúvidas do universo
À tua espera
A desenhar o caminho
Para te escrever em verso
No meu regaço.

O abraço.

Acrobata

(qualquer coisa como a dor do fim)

(instrumental)

(Dedicado ao João Fezas Vital e ao meu tio Pedro da Veiga com muitas, muitas saudades)

Um grande Obrigado a

todos os músicos que participaram neste trabalho de quem guardo "num abraço fechado" as emoções que aqui deixaram e uma grande amizade de muito tempo

Armando Martins, Zé da Ponte (por apostar neste projecto) e a todos na Strauss

Vicente Carvalho (com um abraço muito especial), Rui Simões, Madalena Zenha, Ana Moitinho, Eduardo Cunha e a todos na Encore

Difel pela autorização para gravar o poema do João

Todos os meus amigos, especialmente Guida Vaz do Carmo (pelo envolvimento, desde o princípio, pele força que nos deu a todos e por fazer parte desta "história"), Cristina Carmo, Ângela Santos, Cristina Thorbjornsen, Luis Represas, Cristaino Barata, Guida Ribeiro Rosa, Paulo de Carvalho, Toni Pinto, Xico Morgado, Paulo Gonzo e Catarina Abrantes (com um beijinho muito especial)

Susana Félix e Sofia Froes por nos fazerem rir com anedotas e disparates, mas antes de tudo pelo entusiasmo e pelas muito bonitas vozes

Jorge Avillez, pelas noitadas de bom humor

todos lá em casa, Tó (um abraço grande), Mãe, Pai, Madalena, Heikki, Matildinha, Catarina, Nuno, Rita, António e João por me darem sempre força e por saber que posso sempre contar com eles

Zé Sarmento e Fernando Abrantes, vocês são os maiores, obrigado pelo entusiasmo, a motivação, o enorme profissionalismo e grande astral que noz faz com que esteja já cheia de saudades desta versão muito especial da "Alemanha". Zé, obrigada por acreditarem em mim, essa é a maior das forças.