Zorix - Novembro de 2001

Quando eras miúda o querias ser quando fosses grande?
Lembro-me de querer ser pintora e escritora, e acho que acabo por ser essas duas coisas na música.

Qual foi a maior asneira que te lembras de ter feito nessa altura?
Não me lembro de nenhuma asneira em especial, mas tive uma infância muito em contacto com a natureza, lembro-me muito de subir às árvores, fazer baloiços, escolher com os meus irmãos (somos cinco) os melhores ramos para fazer arcos e flechas e inventar aventuras sempre com uma enorme sensação de liberdade.

Como surgiu a paixão pela música?
Surgiu por causa do meu tio, Pedro da Veiga, que era guitarrista de fado e o mais novo dos meus tios. Quando ele andava a aprender a tocar eu tinha talvez sete ou oito anos e ensinou-me alguns fados que eu cantava e que ele acompanhava na guitarra portuguesa. Depois ensinou-me os primeiros acordes na viola, que também havia lá em casa, que podia praticar com canções tradicionais simples. Quando fiz onze anos o meu pai ofereceu-me uma, (foi uma emoção enorme), e a partir dai fui descobrindo aquilo queainda hoje a guitarra é essencialmente para mim: um espaço para inventar e um mundo muito meu.

O que é que sentiste quando gravaste o primeiro CD?
Senti que estava a concretizar um sonho, embora me lembre de pensar que era só o primeiro passo de uma história que eu queria e sempre quis que se misturasse com a minha vida.

Alguma vez pensaste vir a ter tanto sucesso?
Acho que não se espera nada, quando se grava um disco pela primeira vez, ou espera-se tudo sem saber exactamente o quê. Tem-se a cabeça cheia de sonhos, de luzes e sons que vêm do que conhecemos dos nossos ídolos, das nossas referências, e o aplauso do público tem um papel fundamental em tudo isso.

É fácil para ti lidar com o sucesso?
Se por sucesso aqui se entende ser-se conhecido, ao principio não foi nada fácil mas agora é uma situação que encaro com a maior normalidade. Gosto do contacto com as pessoas, gosto de conhecer quem conhece as minhas canções e quem partilha o meu universo.

O que é que te custa mais quando estás em digressão?
Dormir em hotéis. Tudo o resto é bom , as viagens são sempre também percursos emocionais e vivenciais, é óptimo conhecermos melhor a equipa, encontrar-nos fora do nosso espaço habitual.
Para além disso, a Ana Moitinho, minha manager, que nas digressões acumula a função de roadmanager, é uma excelente “guia” nestas viagens ecostumamos ter sempre programas extra muito especiais e alguns mesmo inesquecíveis.

Qual o teu cantor(a) de sonho? Assim…aquele(a) que para ti era o máximo poder convidar para gravar uma música contigo?
Aqueles que já convidei, o Luis Represas, a Susana Félix, a Sofia Froes, o Jorge Palma. Foi o máximo cantar e gravar com eles. De futuro não sei quem mais gostaria, talvez porque o estímulo para convidar alguém não parta só da minha admiração por essa pessoa mas também da empatia, do momento e da canção em causa.

Qual a situação mais engraçada que te aconteceu num concerto?
Há muitas situações geradas pela cumplicidade da banda em palco, muitas coisas que nos fazem rir, mas não me lembro de nenhuma situação que faça sentido contar precisamente por serem “private jokes”.

Através das tuas músicas consegues realizar sonhos de jovens como nós. Isso é fantástico! O que é que isso te faz sentir?
Antes de mais, obrigada por me dizeres isso. Tem havido muitas vezes emoções inesquecíveis, tanto no palco, na cumplicidade com o público (é maravilhoso ouvi-los cantar), como nas cartas e nas mensagens que recebo via internet assim como aquelas que deixam no site dos fans, (um lugar mágico com a melhor energia do mundo!).

As tuas letras são o reflexo do que estás a sentir quando as escreves?
As minhas letras são a minha forma de “dizer” o meu universo, a minha maneira de ver e de me relacionar com o mundo e com os outros, e são mais que tudo um reflexo de quem eu sou de cada vez que escrevo.

Tens muitos espectáculos marcados até ao fim do ano? Onde?
Agora tenho um disco para fazer. Espectáculos não sei se vai haver mais este ano, mas foi um ano em cheio, não só por termos tocado bastante, mas também porque em todos houve momentos mágicos para guardar e a companhia fantástica de quem quis fazer essas viagens connosco para nos dar força.

O teu próximo álbum vai conter músicas em espanhol?
Não sei, talvez desta vez não.

E quando é que vamos poder ouvir esse novo álbum?
Espero que ele esteja pronto na próxima Primavera

Costumas navegar na Internet?
Costumo procurar sites de músicos e de instrumentos musicais. Há alguns fantásticos.

O que é que fazes nos teus tempos livres?
Leio, vejo filmes ( mais em casa que no cinema por contingências da vida real... ), passo muito tempo com o meu filho e brinco muito com ele, saio algumas vezes com amigos assim como gosto imenso que eles venham a minha casa, etc, etc, etc......

Qual é o teu maior desejo?
O meu maior desejo é que o bom senso, a compaixão, a tolerância, se instalem na cabeça e no coração de quem governa o mundo, porque devemos saber ler os sinais e tem havido muitos, mais do que evidentes, de que estamos muito perto da ruptura.
 

Correio da Manhã - Fevereiro de 2001

Mafalda Veiga acredita que o seu disco ao vivo vai marcar o início de alguma coisa

No ano passado Mafalda Veiga esgotou por duas vezes o Grande Auditório do CCB e mais uma sala do Rivoli, no Porto, para gravar o seu primeiro álbum ao vivo em treze anos de carreira, um sonho antigo como a própria confessou em entrevista ao "CM". "A mim apetecia-me gravar um disco ao vivo desde que fiz o meu primeiro álbum de originais (risos). Acho que esse é o sonho de qualquer músico porque o estúdio implica um trabalho muito mais racional e intelectualizado. Ao vivo é tudo na hora e poder gravar a reacção do público é sempre muito gratificante", explica a cantora, adiantando, no entanto, que só no ano passado é que sentiu que estavam reunidas as condições necessárias para o fazer. "É muito complicado gravar um disco ao vivo porque há muita gente envolvida e também porque se tem de motivar a editora a participar". Gravado nos dias 31 de Maio e 21 de Outubro em Lisboa e 31 Outubro no Porto, "Mafalda Veiga ao Vivo" reúne 21 temas, escolhidos de entre os mais de 50 que a cantora escreveu ao longo da sua carreira, entre os quais se contam "Cada Lugar Teu", "Ilha", Um Pouco de Céu", "Gente Perdida", "Velho", "Balada de Um Soldado", "Uma Noite para Comemorar", "Fragilidade" ou "Restolho". 

A caminho da platina 

Editado no final do ano passado, e tendo já vendido já mais de 27 mil unidades, o disco está aí para recordar uma das mais invejáveis histórias da música ligeira portuguesa escrita no feminino, confirmando a genialidade e premiando a persistência de quem já anda nisto há uns anos, às vezes contra tudo e contra todos. "Este disco era importante para registar o encontro com um público que tenho vindo a conhecer e a conquistar ao longo dos anos. Este é, aliás, um registo de cumplicidade com o público que para mim era muito importante para me motivar a continuar", adianta Mafalda Veiga, explicando que não foi nada fácil escolher os temas a introduzir no disco. "Tentei basear-me mais no último disco porque sabia que as pessoas iriam aos espectáculos mais por causa dele. E a verdade é que as pessoas pediam temas antigos mas sabiam de cor as letras das canções do último disco. Claro que nós tínhamos mais vontade de pegar naquelas coisas mais intocáveis, como lados B que se ouvem menos, mas a verdade é que num espectáculo como este é importante que as pessoas ouçam o que esperam ouvir". Quanto aos temas mais antigos, como "Restolho" ou "Velho, Mafalda acabou por pegar neles da forma que melhor os sente agora. "Quando pego nos temas antigos há coisas que tenho de mudar, até porque eu já não canto da mesma maneira. Há coisas do primeiro disco que eu já não consigo cantar naquele tom. E depois a gente já não sente os temas da mesma maneira. Os próprios arranjos mudam porque, entretanto, fomos influenciados pelo que fomos ouvindo", explica. 

O início de algo 

Defendendo que cada disco é um reflexo daquilo que vai sendo, Mafalda Veiga confessa que não gosta de olhar para trás e com alguma graça à mistura afirma: "Não costumo ouvir os meus discos, porque são sempre coisas muito estáticas em relação ao que nós fazemos. Eu acho que a música só faz sentido ao vivo". Tendo trabalhado mais recentemente em quatro temas para a telenovela "Olhos D'Água", a cantora acredita que o seu disco ao vivo vai marcar o início de alguma coisa e levanta um pouco do véu quanto ao futuro: "Acho que daqui para a frente as coisas vão ser substancialmente diferentes mas não creio que possa vir a haver uma ruptura. O meu trabalho tem seguido uma linha de evolução e continuidade. Acho que posso vir a procurar outras coisas". Continuando a "renunciar" à internacionalização ("não sei até que ponto isso tem a ver com o meu feitio. Eu gosto de compor, de trabalhar, de jantar fora com amigos, o que é para mim um ponto de equilíbrio. O resto, muito hotel e avião não tem nada a ver comigo"), Mafalda Veiga lá continua a afirmar que este é o seu canto, quem sabe "o canto para se ficar longe da guerra feroz que nos domina, onde o tempo possa parar, um lugar sem medos", como a própria cantava no tema "Fragilidade". Mafalda deverá entrará em estúdio para gravar o seu novo disco ainda antes do Verão, sendo que o álbum deverá, segundo as suas previsões, sair lá para Outubro. 

Concerto no CCB - 17/10/2000

"No fundo quando penso num espectáculo, penso numa linha emocional, porque quero construir um intercâmbio entre mim e o público".
Mafalda Veiga não pode revelar quem são os seus convidados na noite do CCB mas assegura que as três pessoas em causa "têm muito a ver comigo, são pessoas que... quem vai lá estar a assistir vai gostar de ver cantar comigo".

O que é que se pode ainda fazer com o álbum "Tatuagem"?

" quando estamos contentes com o nosso trabalho há sempre tudo por fazer, porque a música é divertida quando a podemos abordar de maneira diferente. E com o "Tatuagem" isso tem acontecido frequentemente, com as músicas a adquirir novas roupagens."

"O melhor mesmo é ouvir as pessoas todas as cantarem uma música que tu até compuseste no quarto, sozinha, e que isso faça sentido e faça parte da vida delas. É das coisas mais gratificantes que pode acontecer a um compositor".


"Há públicos mais informados que outros. É pena, devia haver uma divulgação mais forte daquilo que se está a fazer na música portuguesa... falo também na cultura portuguesa em geral."

"Compor, depois de ter um filho, é complicado, em termos práticos... não dá... ele agarra-me na viola, já quer tocar... estou a tentar encontrar o meu espaço... mas em geral, sinto-me mais segura desde que sou mãe. Se calhar porque sempre fui um bocado tímida, e talvez este sentimento seja um pouco egocêntrico. E o facto de, repentinamente, concentrar-me em outra pessoa, que agora é a minha prioridade, mudou a minha perspectiva das coisas."


O CONCERTO

Mafalda Veiga recordou que a primeira vez que tocou no Grande Auditório do CCB, em 1996, ficou muito assustada porque não estava à espera do "espaço enorme que separa o artista do seu público". Hoje em dia está mais habituada. "É uma das salas que mais gosto embora gostasse de ter o público mais perto. Estive lá a 31 de Maio, com sala esgotada, e ocorreram momentos muito íntimos. Tem a ver com o clima que se cria, com a relação entre o artista e as pessoas, com as pessoas a cantarem connosco. O que acaba por vencer qualquer distância".

"Agora, este espectáculo vai ser diferente em termos de alinhamento (as músicas vão ter novas roupagens) e do que eu quero dele. No fundo quando penso num espectáculo penso numa linha emocional, porque quero construir uma linha emocional com o público."

Quanto à música de outros artistas portugueses, Mafalda Veiga confessa que não tem tido muito tempo para ouvir quase nada... mas que aconselha os novos álbuns de Luís Represas, Sérgio Godinho e o tributo a Rui Veloso, mesmo sem os ter ouvido. Da geração mais nova, a cantora afirma ser fã de Susana Félix, Lúcia Moniz, dos Clã, João Pedro Pais... até porque "hoje há muitas pessoas a fazerem coisas muito interessantes".

Mafalda Veiga diz que por vezes se sente desiludida com a "corrida à novidade". Fala de uma imprensa especializada que só quer "a novidade" e que depois, todo o trabalho que é feito por um disco (espectáculos, e outros projectos) é esquecido. "Falo de toda uma preocupação e até de um apoio do Estado, que trata da Música Popular Portuguesa como se fosse toda comercial, e não é verdade. A Música Popular é sim, aquela que nos identifica como um país. A música clássica, por exemplo, não nos identifica... E a popular é aquela que nos reflecte enquanto povo."


MARCAS QUE FAZEM SENTIDO - Janeiro de 2001

Com seis álbuns de originais editados, Mafalda Veiga concretizou finalmente o sonho de lanç ar um álbum ao vivo, que reúne os melhores momentos de concertos realizados em Lisboa e no Porto. A Musicnet esteve à conversa com a escritora de canções que ficou conhecida com o single "Planície", do álbum "Pássaros do Sul", e que entretanto já percorreu um longo percurso que a distancia desse passado e que a ajudou a fidelizar um público que hoje a acarinha e com quem consegue manter uma relação próxima, pois só assim é que "tudo tem sentido".

O que te levou a editar um álbum ao vivo nesta altura?

Por acaso era um sonho antigo. E acho sinceramente que acaba por ser um sonho normal para qualquer músico, porque a relação directa e o feedback do público num espectáculo ao vivo é uma coisa tão emotiva e especial que o registar desses momentos é muito importante para nós. Há muito tempo que havia essa vontade e este ano foi possível. E ainda por cima no Porto.

 

Foi a primeira vez que estiveste no Rivoli no Porto. Como foi esta primeira vez? Como correram os concertos?

Acho que os concertos foram fantásticos. Em Lisboa fizémos o primeiro CCB no dia 31 de Maio, que esgotou com alguma antecedência. Nós pensámos que dava para fazer um segundo dia na altura, mas houve uma série de contratempos e só tivemos uma sala em Outubro. Foi também nessa altura que pudemos conciliar as coisas com a ida ao Rivoli - as salas no Porto também estão muito ocupados, por causa do Porto 2001 e é sempre um drama para nós marcar datas que coincidam também com a disponibilidade da equipa. O primeiro CCB foi muito mais surpreendente porque eu não estava à espera da reacção do público, que conhecia as músicas do último álbum. Cantaram muito e foi muito especial.

 

Como te sentes quando isso acontece, quando cantas em palco e do lado de lá o público te acompanha em coro?

É muito especial. Principalmente por saber que as pessoas gostaram tanto deste último trabalho. Eu estou mais habituada a ouvi-los cantar o "Restolho", e de repente ouvi-os cantar do princípio ao fim os últimos temas - "O cada lugar teu" ou "Uma Noite para comemorar". E é isso que se sonha quando se compõe, acho eu. É chegar às pessoas de tal forma que elas agarram nas canções e as canções passam a ser suas. Transportam aquilo que eu disse sobre uma situação qualquer para histórias suas. E assim fica uma cumplicidade díficil de descrever, mas muito especial.

 

Antes de intepretares o tema "Tatuagens", dizes que fala sobre "as marcas que deixamos nos outros". Que marcas pensas que deixas ou gostarias de deixar naqueles que compram os teus discos ou que vão aos teus espectáculos?

Eu quando faço uma canção sei que aquilo é uma forma de comunicação muito importante. O que eu desejaria era que ao escrever uma canção eu chegasse àquele ponto comum onde as emoções são muito parecidas para todos, apesar das histórias serem de cada um e às vezes intransmissíveis e demasiado pessoais para se poder partilhar. Em qualquer situação há teias emocionais nas quais todos nos cruzamos e, de alguma forma, eu quando escrevo estou a materializar o que as pessoas queriam exprimir e ainda não tinham encontrado as palavras para tal. Eu estou a utilizar as palavras que podem explicar situações que às vezes não são explicáveis. Decifrar emoções, no fundo.

 

Em relação ao álbum "Tatuagens" - a base destes concertos - é mais maduro e tem uma linguagem própria, onde procuras uma identidade enquanto compositora. Confirmas?

Eu sempre dei muita importância à minha evolução como escritora, à maneira como vou crescendo e vou sendo capaz de dizer as coisas. É uma necessidade de deixar os rodeios e ir directa ao assunto. Por isso é que eu sinto que este disco é muito mais maduro. Por outro lado sinto que este álbum é muito intimista porque também nunca falei tanto de mim. Compôr este disco foi, por um lado, muito complicado porque foi muito violento, e por outro muito bom porque tirei um tempo só para mim e confrontei-me comigo mesma, com as minhas dúvidas, os meus medos, os meus sonhos, os meus desejos, tudo. E tentei falar sobre isso. E porque eu sei que há uma grande entrega da minha parte, fico contente por ter conseguido escrever sobre determinadas coisas que há muito tempo queria e se calhar não tinha conseguido.

 

Pelo que percebo, o álbum colmatou as tuas expectativas, quer pelas salas cheias, quer pelos coros nos teus concertos ao vivo.

Eu acho que não tem sido só a presença e o cantarem. Tem também aquele lado mais íntimo, que é o receber cartas e emails que dizem coisas muito especiais sobre o disco. Eu estou a compôr e estou naquela fase do processo em que me sinto muito mais frágil e gosto muito de ler as mensagens que me enviam e saber que para essas pessoas faz sentido o que eu escrevi. Dá-me imensa força. E ao mesmo tempo faz também com que tudo faça muito sentido, mesmo para nós como equipa. Algumas cartas são dirigidas à equipa de produção, aos músicos, às pessoas que trabalham comigo, e para nós como equipa haver um feedback a esse nível por parte do público é muito bom, é fantástico.

 

Estás em fase de composição? Para quando então um novo álbum de Mafalda Veiga?

Eu gostava que saisse no próximo Outono, mas estou ainda a trabalhar, a escrever.

 

Voltando ao álbum ao vivo. A escolha do alinhamento do álbum e de um espectáculo passa por que critérios?

Este disco não é o alinhamento do espectáculo e há inclusivamente um tema que eu adoraria que estivesse aí mas que não foi autorizado pela editora onde gravei: o "Lume". Fiquei muito triste por não o poder incluir. Mas de qualquer forma, este disco é uma recolha dos melhores momentos dos vários concertos, não é um alinhamento do concerto.

 

Não incluiste o tema "Planície". Foi propositadamente? Tens consciência que o público em geral continua a relacionar-te com esse tema, que te lançou?

Essa ligação que as pessoas fazem acaba por ser uma coisa muito mais delas do que minha. Eu prefiro fazer letras novas e desligar-me dos temas anteriores. É sempre um bocado chato para um músico estar sempre a tocar temas antigos só porque as pessoas conhecem. É bastante mais gratificante poder tocar coisas novas. Onde me pediram para tocar a "Planície" foi no primeiro CCB e eu toquei, mas por acaso foi muito improvisado e eu não gostei do resultado. E portanto não pûs no disco. Mas nos outros lados as pessoas não pediram, pediram o "Lume", pediram o "Restolho", pediram outros temas e esse não.

 

Porquê repetir os temas "Uma Noite para Comemorar" e "Restolho", um em Lisboa e outro no Porto?

Para mim foi complicado escolher alguns dos temas, porque por exemplo, no Rivoli "Uma Noite Para Comemorar" foi muito mais calmo, porque foi o quarto tema que eu toquei, as pessoas ainda estavam a ver com atenção e mais quietinhas. Quando toquei no CCB foi em encore, foi muito mais quente, as pessoas cantaram todas comigo. Eram momentos tão diferentes que eu não quis desistir de nenhum. E o "Restolho" a mesma coisa, teve momentos tão especiais com o público, tanto no Rivoli como no CCB, que eu quis mesmo manter. E depois há uma brincadeira. Um grande amigo meu tinha-me dito para cantar a "Vertigem" e há muito tempo que eu não tocava esse tema. Fizemos um arranjo que não tem rigorosamente nada a ver com o que está gravado e então há uma faixa do disco que é o tema "Vertigem" no Rivoli, e há uma faixa escondida que é a "Vertigem" no CCB - para ele.

 

Em que se tornou Mafalda Veiga desde "Pássaros do Sul". Como é que te situas neste momento no panorama musical português?

Não sei, eu sou uma escritora de canções. É isso que eu sempre quis ser e é isso que eu vou continuar a ser. É a parte mais importante, aquela que eu gosto mais do meu trabalho. O resto vem como complemento e como consequência de escrever canções e não sei. Acho que é isso que eu sou.

 

Em termos de música, o que é que ouves?

Música portuguesa ouço bastante, muito numa área mais acústica, os cantautores mais conceituados e conhecidos, como Sérgio Godinho, Fausto - gosto muito do Fausto - Luís Represas, ou como as gerações mais novas, Susana Félix, o João Pedro Pais...Mas outras coisas também. O último disco que eu tenho estado a ouvir é da Rickie Lee Jones, gosto muito do trabalho dela, ou por exemplo Tori Amos ou Sherly Crow.

 

A música que ouves influencia o teu trabalho de compositora ou a composição é uma coisa muito própria?

Eu acho que acaba por ser uma coisa muito própria. Quanto estou a compôr normalmente não ouço música. O que acontece é que o que me puxa para compôr não é a música, são as palavras. Por isso, quando ouço música é muito mais para me despertar a vontade de escrever do que para me inspirar ou tirar ideias. E há alturas em que a música acaba por ser muito redundante, não aparece nada novo, é tudo muito igual.

 

Quer dizer que na composição primeiro vêm as palavras e depois as melodias?

O impulso tem a ver sempre com as palavras, mas depois quando escrevo vem ao mesmo tempo música e letras.

 

Quais vão ser os passos da Mafalda Veiga agora que entrámos em 2001?

Nós vamos continuar a fazer concertos, lá para Fevereiro ou Março. Agora estou mesmo só a compôr. O último concerto que eu fiz no Teatro Gil Vicente em Cascais foi muito engraçado, porque tinha-me telefonado um rapaz a dizer-me que ele e outros colegas têm um canal de conversação na Internet onde falam sobre o meu trabalho e combinaram encontrar-se todos para se conhecerem pessoalmente no concerto de Cascais. Era um grupo grande e eu estive com eles no final. Foi emocionante. O que tem sido especial nos concertos, e este ano particularmente, é que da parte deles há sempre coisas extremamente emotivas a acontecer e isso deixa-me super feliz, é muito bom.Há também muita emoção que vem para mim. Muita coisa que eu dou e depois volta.

 

Demonstras sempre uma relação próxima com o teu público. É importante?

Tenho. Acho importantíssimo. É engraçado que algumas pessoas que neste momento são grandes amigos meus começaram por ser o típico fã, que vai pedir autógrafos. E acho importante essa relação, porque isso faz com que tudo faça muito mais sentido. Não estou a fazer música para vender, eu não sou industrial, não sou empresária. Eu estou a fazer música porque faz parte da minha vida. Portanto, essa relação de amizade e esse carinho por parte das pessoas que me vão ver tocar é muito importante para mim.

 

 

Entrevista dada à NetParque em 21/12/2000
Será que pode considerar-se “Mafalda Veiga Ao Vivo” uma revisão da matéria dada ao longo de 13 anos de carreira?

É um disco muito baseado no “Tatuagem” – que acho que é o meu melhor trabalho de originais –, que era o que queria mostrar e tem alguns temas mais antigos, com versões actuais. Há arranjos com os quais já não me identifico e é importante poder registá-los como são agora, o que é que aconteceu com eles ao longo do tempo, como é que convivo com os temas mais antigos e que abordagem lhes dou. “Velho” é um tema que toco só com guitarra, que tinha um arranjo muito mais denso, e gostei de poder registá-lo. Gravar um disco ao vivo era uma vontade de há muito tempo, acho que é um sonho de qualquer músico. É a vontade de poder registar aquilo que acontece num espectáculo, que tem a ver não só com situações emocionais únicas que vivemos uns com os outros a tocar, mas também na relação com o público que lá está. Num registo ao vivo é tudo mais directo, mais espontâneo. Por isso foi bom poder encontrar os pretextos e as ocasiões para poder gravar.

Acha que este álbum reflecte o seu estado de espírito, não só durante os espectáculos mas também o actual?

Reflecte. No álbum estão os melhores momentos. Não todos, mas muitos dos momentos que foram mais bonitos ou melhores, artisticamente. Não estão todos os momentos mais intensos com o público, porque foram muitos. Houve imensos momentos de cumplicidade, de conversa, de diálogo com o público, e foi difícil encontrar espaço para eles. Também tivemos muito pouco tempo para conseguir fazer este disco e, nesse aspecto, acho que é um bom disco. Mas, também, é o disco possível.

Do alinhamento do álbum não fazem parte alguns dos temas mais característicos da sua carreira, como “Planície”. Porque é que escolheu estas canções?

Os temas que as pessoas ouviram mas que aí não estão são, por exemplo, o “Lume” (que não pude incluir, porque a editora onde gravei esse disco não me autorizou), que foi uma canção muito querida e participada. Havia para escolher imensas versões, porque o “Lume” foi sempre tocado em todos os concertos. Mas houve outros temas. Por exemplo, a “Planície” toquei só uma vez e nem sequer estava ensaiado. Foi porque as pessoas pediram. Toquei no encore, só com guitarra, e a versão não estava propriamente em condições de vir no disco. Mas claro que faltam temas. Já tenho 50 canções originais gravadas e seleccionar um alinhamento para um espectáculo é complicado. Mas quis muito basear o espectáculo no último disco. As canções que sabia que as pessoas gostariam mais de ouvir estão lá, como o “Restolho” ou o “Velho”. A “Balada de um Soldado” também foi pedida – não estava à espera que me pedissem essa e cantei-a a cappela, porque também não estava ensaiada. Foram momentos muitos bonitos de contacto com o público e, principalmente, de sentir que eles estavam por dentro da história, que as canções também são deles, que eles as cantam e fazem sentido para eles como fazem para mim. O que acontece é que aquelas canções, de repente, falam da vida deles e falam de coisas deles, como quando eu as escrevi falaram das minhas coisas. Acho que houve um ponto onde as coisas todas se encontraram e onde as emoções foram comuns a todos. Isso também senti, porque nos concertos houve uma cumplicidade e uma intimidade muito grande.

O que é que essa partilha de emoções com o público lhe faz sentir?

Acho que quando construímos um espectáculo e estamos muito tempo à volta dos temas e ensaiamos, há um trabalho que envolve uma carga emocional grande e uma expectativa enorme em relação ao que vai acontecer. E quando isso volta para nós, quando estamos ali a mostrar um trabalho que fizemos e, de repente, ele volta para nós, de uma forma tão emotiva como voltou nestes concertos, é indescritível. É uma emoção fortíssima. Senti-me muito feliz com estes concertos, porque o público foi fabuloso. Foi um público fantástico.

Neste álbum voltam a aparecer convidados, como a Susana Félix ou a Sofia Froes. Sempre trabalhou com outros músicos, como o Jorge Palma ou o Luís Represas. Sente-se bem com outros músicos, será essa uma forma de alargar horizontes?

Tem havido sempre um motivo qualquer que me faz convidar as pessoas. Não tanto um motivo profissional, mas também uma envolvência pessoal. E convidei sempre pessoas com quem tinha, à partida, uma empatia e com quem queria partilhar determinado momento. A Susana e a Sofia fizeram coros para mim durante muito tempo. Tivemos um trabalho que gostámos imenso de desenvolver e que gosto de repetir sempre que posso. Para mim, é extremamente agradável poder trabalhar com elas, principalmente nesta canção que ficou no disco (“Por Outras Palavras”). Acho que elas são imprescindíveis. Gosto de muito de a cantar com elas as duas, acho que elas cantam muito bem e conseguimos criar uma cumplicidade enorme. E o mesmo com todos os outros convidados que tive nos concertos, mas que acabo por não ter nos discos (porque não foi possível, não por eles, mas por motivos técnicos). Há sempre uma empatia. Além de admirá-los muito como músicos ou como escritores, havia à partida uma empatia e isso também é importante para mim. Já havia uma relação, já havia um motivo extra-artístico para estarem lá.

A propósito dessa relação, no início da sua carreira foi comparada aos Trovante, teve discos produzidos por Manuel Faria, participou em concertos com os Trovante, gravou com Luís Represas... Sente-se uma herdeira da música dos Trovante?

Herdeiros dos Trovante há muitos. Foram um grupo importantíssimo na música portuguesa e deixaram marcas muito importantes na maior parte de nós. Naquela altura conheci-os bem, trabalhei com eles, eram pessoas com quem me relacionava. Acho que deixaram marcas em muita gente e, mesmo a nível de espectáculos, impulsionaram muito a qualidade, a parte técnica... E nós somos herdeiros disso tudo, mas continuamos a fazer coisas pelos nossos caminhos.

Teve uma infância e uma adolescência longe dos centros urbanos – em Montemor, em Espanha, em Évora... Como é que isso influenciou a sua escrita e a sua forma de compor? 

Agora vivo em Lisboa, mas acho que ter como referência uma infância com completa liberdade e muito feliz é sempre uma boa base. São sempre memórias que me fazem muito bem. E o regresso a Montemor tem sempre a ver com essas memórias. A paisagem do Alentejo traz-me memórias de infância incríveis e coisas de que me lembro com imensas saudades. Tudo isso acaba por ser a construção do que somos, independentemente de escrever ou não. Se eu fosse outra coisa qualquer, isso fazia parte daquilo que sou. Para escrever é exactamente a mesma coisa. Escrevo muito sobre o meu universo e isso é mais uma referência, mais uma parcela.

É curioso que, numa altura em que a maior parte da música que se faz é urbana ou vem de guetos, você consegue manter essa linha distante.

Eu, hoje em dia, escrevo muito mais sobre pessoas. Se calhar, as referências ao Alentejo ficaram muito explícitas no primeiro disco, porque foi um disco de regresso a casa – foi quando voltei de Espanha – e o impacto do regresso fez-me escrever, porque aquilo era tudo muito especial para mim. De repente, a partir do segundo, comecei a escrever muito mais sobre as pessoas, sobre as suas relações, os seus encontros e desencontros. E segui, em termos de escrita, esse caminho. É o que me inspira mais para escrever. A vivência em Lisboa tem sido muito importante também. Estou cá já há muito tempo, desde os 18 anos, e foram muito importantes todas as experiências que tive cá, todos os amigos que encontrei e todas as pessoas com quem me relacionei, principalmente na música, o que foi também muito importante. Mas acho que quando se é um escritor de canções – que é o que acho que sou, porque, independentemente de cantar, tudo parte de escrever canções, tudo o resto é consequência –, tudo o que nos acontece é muito importante, porque acaba por ter tudo a ver com o que vamos escrever. É como uma espécie de puzzle. Quando escrevo, estou a tentar montar um puzzle do que sinto, das emoções que tenho. Tentar encontrar as palavras certas, no fundo, é como encontrar as peças. E, de repente, consegui construir uma canção. Quando escrevo, tento encontrar um certo vazio e um certo silêncio, para poder voltar a construir. Tento esquecer-me do que fiz para poder inventar. E no meio desse silêncio, quando estou à procura, tudo aquilo que vivi, tudo aquilo que senti, todas as conversas que tive, imensas coisas que foram marcantes por isto ou por aquilo, acabam por vir ao de cima. Mesmo que não tenha muita consciência, estou sempre a ir lá. 

Na sua carreira, desde o êxito inicial, tem mantido um percurso discreto mas constante. Nesta altura, em que edita um álbum ao vivo, que balanço faz da sua carreira?

Aquilo com que me preocupei mais – porque acho que o sucesso é uma coisa extremamente relativa – foi com o meu trabalho. Como é que escrevo, se estou a escrever melhor ou pior... Quero melhorar e evoluir naquilo que faço. Por isso é que gosto muito do último disco, “Tatuagem”. Acho que é um disco onde consegui ser quem sou agora, consegui pôr cá para fora quem é que sou e o que é que sinto agora. É um disco de confronto comigo, de procura, cá dentro, das minhas emoções e daquilo que penso sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre as coisas que nos acontecem uns aos outros. Nesse aspecto, o balanço que faço é muito positivo, no sentido de ter construído um trabalho e, de repente, haver um público fabuloso, que acompanha e se interessa e conhece e que me dá imenso carinho quando vou tocar. As coisas fazem um sentido enorme e acho que estou numa fase muito boa.

Em tempos tentou gravar um álbum em espanhol. Ainda mantém esse sonho?

Tentei fazer um álbum de versões em espanhol, mas ficou parado. Gostava de fazer um circuito de teatros em Espanha, mas a música que faço não tem muito a ver com a música exportável, que é muito inspirada no fado. É complicado entrar no circuito lá fora. Mas gostaria muito de poder fazê-lo e acho que faria todo o sentido, porque os espanhóis acarinham muito os cantautores (mais até do que cá). Mas, ao mesmo tempo, gostava de fazer isso sem uma projecção internacional, porque não tenho nenhum feitio para isso. Sou caseira, gosto das coisas todas que uma vida com muitas solicitações não permite. 

Texto: Ricardo Sérgio


A cor inefável das tatuagens

A cantora está de volta aos palcos: pela segunda vez, o CCB esgota para ouvir a voz que deu à luz «Pássaros do Sul». Mais de uma década após a estreia, a confirmação: Mafalda Veiga constrói, sem pressas, o seu próprio espaço no meio musical português. Desse, espaço, falou ao DN.

As suas entrevistas dão muitas vezes a sensação de que a pergunta não encaixa na resposta. Não gosta de entrevistas?
É complicado: nem sempre as pessoas partem do mesmo ponto de vista, e só depois se percebe.

Procura um produto acabado, uma linguagem?
Acho que o que desenvolvi a compor foi uma linguagem. Tento construir numa canção, uma estrutura fechada, com ética e limites, uma ideia, uma emoção.

Nos dois últimos discos os temas parecem mais homogéneos.
Componho agora de modo diferente. O segundo disco foi quase inteiramente composto na estrada no meio de concertos; até escrevi no autocarro. A partir de «A Cor da Fogueira» decidi que tinha que me isolar, e os temas passaram a ser feitos para um determinado disco. Em «Tatuagem» há um tema principal, as marcas deixadas em nós pelas experiências que vivemos.

O corpo como monólito de memória, não verbal, onde as coisas ficam gravadas?
Sim, é isso.

Acha que a mediocracia prejudica a produção musical?
É frustrante que no nosso próprio país haja tantas dificuldades de divulgação. Devia haver nos media uma consciência maior de que são um veículo de cultura nacional . É uma tarefa árdua para uma editora divulgar um produto de música portuguesa.

Neste espectáculo vai haver um balanço de temas novos e antigos, semelhante ao anterior?
Mais novos que antigos. Houve um grande trabalho de reconstrução dos temas, que se deve sobretudo ao António Pinto, que toca comigo há muitos anos. Não vamos reproduzir os arranjos do disco, estamos a preparar um trabalho novo, para tocar ao vivo. A vantagem da música é que podemos remexer nos temas.

Gostava de fazer uma colectânea de temas antigos com novos arranjos?
Esse era o disco que fazia sentido para mim. Até porque alguns temas, tenho a sensação de os ter perdido, que já não sou capaz de os cantar com os arranjos inicialmente gravados.

E de que outras coisas gostaria? 
De tocar em espaços mais pequenos, estar alguns dias a tocar num certo sítio, por exemplo. É pena que haja tão poucos espaços além dos grandes e se aposte tão pouco. Os regionais têm uma lotação tão pequena que é impossível pagar custos com a receita de bilheteira, o que torna apenas possíveis grandes iniciativas. A música não é tratada como forma de cultura, mas mais como forma de entreter as pessoas, o que faz com que os espaços sejam pouco aproveitados.

Como considera a crítica musical em Portugal? Especialista? Generalista? Impressionista?
Não acho que a crítica tenha de ser muito especializada. Críticas generalistas podem ser importantes, para ajudar a perceber onde estão os erros. Os erros fazem parte de nós. Um espectáculo trabalha as emoções, e o crítico relata o produto da sua sensibilidade, que pode ajudar a corrigir coisas. Mas a crítica não pode ter um papel mais importante que o que deve, ou seja, fazer mudar de rumo.

Conhece o seu público, o que compra discos e vai a concertos? 
Em concertos pequenos, algumas pessoas aproximam-se, e têm sido sobretudo jovens. Não tenho uma ideia rigorosa. Quando escrevo, dirijo-me a pessoas com experiências de vida parecidas. Mas quando mostro o meu trabalho a pessoas mais novas, não vêem os mesmos sentidos que lá pus. Vejo então que na canção há um espaço aberto que eu não tinha percebido.

Algumas das letras falam dos velhos, e muito de abandono.
Procuro conservar-me vulnerável às coisas, não perder a capacidade de sentir.

A presença da guitarra no estado mais puro parece atenuar-se.
Pelo contrário. Os meus temas são feitos muito para piano e guitarra acústicos, mesmo os arranjos com guitarras electrónicas são feitos de modo a que sobressaiam as acústicas. De resto, gosto muito deste trabalho, foi onde disse de facto o que sentia. Escrevi canções que há muito tempo queria escrever. E tenho mais a certeza de que é isto que quero.

Viveu em Espanha na queda do franquismo. O que lhe ficou?
Não era de modo a que uma criança de 10, 12 anos sentisse. Mas acredito nas pessoas, não nas ideologias, que são enganosas. Sou uma pessoa de causas, quando acredito vou até ao fim. Faz-me confusão este lado superficial que apaga os significados. Mas percebi que temos uma cultura muito própria, mais voltada para dentro; convidamos para jantar, eles vivem na rua, convidam-se para tomar uma «copa». 

Como vê o fenómeno da ETA? 
Consigo entender que queiram um país independente mas não que se matem, mutilem pessoas. Não faz sentido. Mas também sei que, se falar com algumas pessoas, o que eu estou a dizer também não faz sentido para elas.

Disse uma vez que se identificava com a paisagem alentejana, longínqua, distante e espaçosa. 
Gosto do restolho, do vazio, do não haver nada entre o céu e a terra. Tenho imensas memórias de infância ligadas àquela paisagem, e como foi uma infância muito feliz... Preciso de estar em lugares que funcionem quase como pessoas, como um abraço.

O seu público vai gostar de saber se já teve a criança, se correu bem, se ela é agora a síntese de tudo.
Correu bem. Gostava de não perder nada do crescimento dele, faço um enorme esforço para conciliar ambos, ele e a música.