1. Planície  
2. O menino da sua mãe  
3. Restolho        Tablatura
4. Sol de Março  
5. Charco  
6. Balada de um Soldado  
7. Velho  
8. Me Escapé Con Mi Guitarra  
9. Nós  
10. Soslaio  

Da sala onde costumo tocar, num canto isolado da casa, vejo muitas vezes os bandos de pássaros que voam ao entardecer, para o sul. Depois fica o vazio onde cabem as palavras, a música e o resto.

Planície  

o bando debandou 
subindo do arvoredo
do vácuo que ficou
no fim do seu degredo 
as asas abrem chagas
no acinzar do entardecer 
e amansam a agonia 
do dia a escurecer

ensombram a ribeira
e o verde da seara
e passam pela eira
em que o sol se pousara
nas gotas do orvalho
luarento e vacilante
refrescam o cansaço
e dormem um instante

pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias 
p'ra cantar às moças 
em noites de romaria 
em noites de romaria 

no adejo da alvorada 
oscila a minha mágoa 
o céu à desgarrada 
irrompe azul na água 
e a passarada acorda 
no sonhar de um camponês 
e entrega-se no sul 
do frio que à noite fez 

é tempo da partida 
e a côr no horizonte 
adensa a despedida 
e o borbotar da fonte 
as asas abrem chagas 
na poeira o sol acalma 
num agitar inquieto 
que me refresca a alma 

pássaros do sul 
bando de asas soltas 
trazem melodias 
p'ra cantar às moças 
em noites de romaria 
em noites de romaria 

O menino da sua mãe  

No plaino abandonado 
Que a morna brisa aquece 
De balas trespassando 
- Duas, de lado a lado -, 
Jaz morto, e arrefece. 

Raia-lhe a farda o sangue. 
De braços estendidos, 
Alvo, louro, exangue, 
Fita com olhar langue 
E cego os céus perdidos. 

Tão jovem! que jovem era! 
(Agora que idade tem?) 
Filho único, a mão lhe dera 
Um nome e o mantivera: 
«O menino da sua mãe» 

Caiu-lhe da algibeira 
A cigarreira breve. 
Dera-lhe a mão. Está inteira 
É boa a cigarreira. 
Ele é que já não serve. 

De outra algibeira, alda 
ponta a roçar o solo, 
A brancura embainhada 
De um lenço... Deu-lhe a criada 
Velha que o trouxe ao colo. 

Lá longe, em casa, há prece: 
"Que volte cedo, e bem!" 
(Malhas que o Império tece!) 
Jaz morto, e apodrece, 
O menino da sua mãe 

Restolho        Tablatura

geme o restolho triste e solitário 
a embalar a noite escura e fria 
e a perder-se no olhar da ventania 
que canta ao tom do velho campanário 

geme o restolho preso de saudade 
esquecido, enlouquecido, dominado 
escondido entre as sombras do montado 
sem forças e sem côr e sem vontade 

geme o restolho a transpirar de chuva 
nos campos que a ceifeira mutilou 
dormindo em velhos sonhos que sonhou 
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda 

mas é preciso morrer e nascer de novo 
semear no pó e voltar a colher 
há que ser trigo, depois ser restolho 
há que penar pra aprender a viver 

e a vida não é existir sem mais nada 
a vida não é dia sim dia não 
é feita em cada entrega alucinada 
pra receber daquilo que aumenta o coração 

geme o restolho a transpirar de chuva 
nos campos que a ceifeira mutilou 
dormindo em velhos sonhos que sonhou 
na alma a mágoa é enorme, intensa, aguda 

mas é preciso morrer e nascer de novo 
semear no pó e voltar a colher 
há que ser trigo, depois ser restolho 
há que penar pra aprender a viver 

e a vida não é existir sem mais nada 
a vida não é dia sim dia não 
é feita em cada entrega alucinada 
pra receber daquilo que aumenta o coração 

Sol de Março  

dos laivos brancos que há no céu para enfeitar 
descendo à fruta já madura do pomar 
e arrufando nas varandas 
asas negras como as tranças 
das meninas que à janela se vão pentear 

há campos verdes onde cresce o malmequer 
branco, amarelo com o bico o vai colher 
e voltando prás varandas 
com a flor enfeita as tranças
das meninas que à janela se vão recolher 

um sol de Março
um vento fresco
e o canto alegre da fazer o ninho nos beirais
um campo verde
um sol aceso
e as meninas de outros tempos com seus aventais

de telha em telha saltitando sem voar
no espaço aberto agitando o seu cantar
trazem côr para as varandas
trazem laços para as tranças
das meninas que à janela se vão encantar

o sol demora no no calor que faz dormir
o canto é lento é lindo é calma a descobrir
e as meninas nas varandas
os cabelos já sem tranças
debruçadas para os laços que viram cair

um sol de Março
um vento fresco
e o canto alegre da fazer o ninho nos beirais
um campo verde
um sol aceso
e as meninas de outros tempos com seus aventais

um sol de Março
um vento fresco
e o canto alegre da fazer o ninho nos beirais

Charco  

Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho 
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver 
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho 
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer 

Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto 
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê 
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto 
E o que monto atiro fora para nascer outra vez 

Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado 
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora 
Antes sou como uma ideia que se despe do passado 
Uma planta enraizada na sina da sua hora 

Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho 
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou 
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho 
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou. 

Balada de um Soldado  

Madre, anoche en las trincheras 
Entre el fuego y la metralla 
Vi un enemigo correr 
La noche estaba cerada, 
La apunté con mi fusil 
Y al tiempo que disparaba 
Una luz iluminó 
El rostro que yo mataba 
Clavó su mirada en mi 
Con sus ojos ya vacios 

Madre, sabes quien maté? 
Aquél soldado enemigo 
Era mi amigo José 
Compañero de la escuela 
Con quien tanto yo jugué 
De soldados y trincheras 

Hoy el fuego era verdad 
Y mi amigo ya se entierra 
Madre, yo quiero morir 
Estoy harto de esta guerra 
Y si vuelvo a escribir 
Talvez lo haga del cielo 
Donde encontraré a José 
Y jugaremos de nuevo 

Madre, sabes quien maté? 
Aquél soldado enemigo 
Era mi amigo José 
Compañero de la escuela 
Con quien tanto yo jugué 
De soldados y trincheras 
Madre, sabes quien maté? 
Aquél soldado enemigo 
Era mi amigo José 

Velho  

Parado e atento à raiva do silêncio 
De um relógio partido e gasto pelo tempo 
Estava um velho sentado no banco de um jardim 
A recordar fragmentos do passado 

Na telefonia tocava uma velha canção 
E um jovem cantor falava na solidão 
Que sabes tu do canto de estar só assim 
Só e abandonado como o velho do jardim? 

O olhar triste e cansado procurando alguém 
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém 
Sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver 
A imagem da solidão que irão viver 
Quando forem como tu 
Um velho sentado num jardim 

Passam os dias e sentes que és um perdedor 
Já não consegues saber o que tem ou não valor 
O teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim 
Pra dares lugar a outro no teu banco do jardim 

O olhar triste e cansado procurando alguém 
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém 
Sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver 
A imagem da solidão que irão viver 
Quando forem como tu 
Um resto de tudo o que existiu 
Quando forem como tu 
Um velho sentado num jardim 

Me Escapé Con Mi Guitarra  

Me escapé con mi guitarra 
Camino de un lugar lejos de aqui 
Recuerdo el romancero de otra soledad 
Que se me acerca 

Me escapé con mis canciones 
Y el alma transbordando de sentir 
La guitarra en las manos compañera 
Buscando alguna paz, algun lugar adonde ir 

Puedo contarte mil histórias 
Pedirte que me escondas en tus brazos 
Como a un niño 
Puedo contarte mis secretos 
Hablarte, mi guitarra, de la niñez 

Me escapé con mis recuerdos 
Momentos de añoranza y soledad 
Y aunque sé que estás conmigo mi voz tiembla 
Al encuentro de tu voz 

Me escapé con mis temores 
De que un final asome su mirada 
Se los llevan y no puedo conservar 
Nada más que lo intocable, en el alma 

Puedo contarte mil historias 
Pedirte que me ayudes a ser fuerte 
Como el árbol 
Puedo contarte mis secretos 
Cogerte, mi guitarra, y cantar 

Antes que acabe la hora 
Y quedes tu dormida en mi lugar 
Ayudame a soltar mis sentimentos 
Y a pasar al otro lado del cristal 

Sabré contarte mil histórias 
Crear las melodias confundidas en mi adentro 
Sabré contarte mis secretos 
Tocarte, mi guitarra, y enfín lloar 

Nós  

Nós somos a forma bonita, completa, de se cantar 
Nós somos a voz e a palavra que nunca vão acabar 
Cantando e amando vivendo 
Com toda a vontade que é possivel ter 
Nós somos a forma bonita, completa, de se viver 

Nós somos o ser extravazado que o nosso sentir nos dá 
O mito complexificado em busca do que não há 
Cantando e amando e vivendo 
Com toda a verdade que é possivel ter 
Nós somos a forma bonita, completa, de se viver 

E eu canto e eu quero o que eu canto 
Eu preciso de cantar para encher essa forma 
Eu sou o que eu canto 
É na voz que eu rebento de mim 
Alguém completado na vida 
Prolongado na morte que já ninguém tem 
A partir do momento em que a forma bonita 
Se encheu de uma essência qualquer de ser 

Nós somos a dor mais profunda que existe em todo o planeta 
Mas somos também a alegria melhor que se inventa 
Se alguém perguntar afinal 
O que é que nós somos de tão lindo assim 
A resposta é tão simples 
Basta olhar pra vocês e pra mim 

Soslaio  

húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio
fresco de verde molhado
gotas de verde luar
riso no canto da boca
tão descarado no olhar
da cor bonita de Maio
húmido olhar de soslaio
sol que amormece na pele
gato a dormir na janela
o meu amor enroscado
em linho, meiguice e mel
sonhos no rubro dos lábios
fresco de verde molhado
da côr intensa de Maio
húmido olhar de soslaio

faz-me comichão na alma
o azul do olhar roçando
o riso que põe bricando
no canto da minha boca
riso de luar molhado
seus olhos do azul de Maio
húmido canto da boca
húmido olhar de soslaio