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David Mourão-Ferreira | E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites não dos meses lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se envolam tantos anos.
Nós temos cinco sentidos: são dois pares e meio de asas.
- Como quereis o equilíbrio?
Crespúsculo
É quando um espelho, no quarto, se enfastia; Quando a noite se destaca da cortina; Quando a carne tem o travo da saliva, e a saliva sabe a carne dissolvida; Quando a força de vontade ressuscita; Quando o pé sobre o sapato se equilibra... E quando às sete da tarde morre o dia - que dentro de nossas almas se ilumina, com luz lívida, a palavra despedida.
Penélope
mais do que um sonho: comoção! sinto-me tonto, enternecido, quando, de noite, as minhas mãos são o teu único vestido.
e recompões com essa veste, que eu, sem saber, tinha tecido, todo o pudor que desfizeste como uma teia sem sentido; todo o pudor que desfizeste a meu pedido.
mas nesse manto que desfias, e que depois voltas a pôr, eu reconheço os melhores dias do nosso amor.
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