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Ruy Belo | Contigo aprendi coisas tão simples como a forma de convívio com o meu cabelo ralo e a diversa cor que há nos olhos das pessoas Só tu me acompanhastes súbitos momentos quando tudo ruía ao meu redor e me sentia só e no cabo do mundo Contigo fui cruel no dia a dia mais que mulher tu és já a minha única viúva Não posso dar-te mais do te dou este molhado olhar de homem que morre e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Este céu passará e então teu riso descerá dos montes pelos rios até desaguar no nosso coração
É triste ir pela vida como quem regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
Digam que foi mentira, que não sou ninguém, que atravesso apenas ruas da cidade abandonada fechada como boca onde não encontro nada: não encontro respostas para tudo o que pergunto nem na verdade pergunto coisas por aí além Eu não vivi ali em tempo algum
Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar caminha para o mar pelo verão
Amei a mulher amei a terra amei o mar amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar De muitas delas de resto falei
Ver-te é como ter á minha frente todo o tempo é tudo serem para mim estradas largas estradas onde passa o sol poente é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar se o tempo existe se existiu alguma vez e nem mesmo meço a devastação do meu passado
Tem o amor a arte de tornar eterno aquele que por amor tem de morrer e até de morrer jovem amiúde pois os deuses amam aquele que perece em plena juventude e assim se fixa petrifica e permanece
Nomeei-te no meio dos meus sonhos chamei por ti na minha solidão troquei o céu azul pelos teus olhos e o meu sólido chão pelo teu amor
e um olhar perdido é tão difícil de encontar como o é congregar ventos dispersos pelo mar
Para a dedicação de um homem
Terrível é o homem em quem o senhor desmaiou o olhar furtivo das searas ou reclinou a cabeça ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina Não há conspiração de folhas que recolha a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro quando caminha pela tarde acima A morte é a grande palavra para esse homem não há outra que o diga a ele próprio É terrível ter o destino da onda anónima morta na praia
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