    
 |
Jorge de Sena | Génesis
De mim não falo mais :não quero nada. De Deus não falo:não tem outro abrigo. Não falarei também do mundo antigo, pois nasce e morre em cada madrugada.
Nem de existir,que é a vida atraiçoada, para sentir o tempo andar comigo; nem de viver,que é liberdade errada, e foge todo o Amor quando o persigo.
Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos em vâo a esperaram porque nunca a viram! E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!
Não há verdade:O mundo não a esconde. Tudo se vê: só se não sabe aonde. Mortais ou imortais,todos mentiram.
Conheço o Sal
Conheço o sal da tua pele seca depois que o estio se volveu inverno da carne repousando em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos quando das bocas se estreitavam lábios e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros ou louros ou cinzentos que se enrolam neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minha mãos como nas praias o perfume fica quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal da tua língua, o sal de teus mamilos, e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu, ou é de mim em ti, ou é de ti em mim, um cristalino pó de amantes enlaçados.
Beijo
Um beijo em lábios é que se demora e tremem no abrir-se a dentes línguas tão penetrantes quanto línguas podem. Mais beijo é mais. É boca aberta hiante para de encher-se ao que se mova nela. É dentes se apertando delicados. É língua que na boca se agitando irá de um corpo inteiro descobrir o gosto e sobretudo o que se oculta em sombras e nos recantos em cabelos vive. É beijo tudo o que de lábios seja quanto de lábios se deseja.
O corpo não espera. Não. Por nós ou pelo amor. Este pousar de mãos, tão reticente e que interroga a sós a tépida secura acetinada, a que palpita por adivinhada em solitários movimentos vãos; este pousar em que não estamos nós, mas uma sêde, uma memória, tudo o que sabemos de tocar desnudo o corpo que não espera; este pousar que não conhece, nada vê, nem nada ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo! E já passou, quando um de nós ou quando o amor chegou.
|