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José Gomes Ferreira | CHOVE!
Chove...
Mas isso que importa!, se estou aqui abrigado nesta porta a ouvir a chuva que cai do céu uma melodia de silêncio que ninguém mais ouve senão eu?
Chove...
Mas é do destino de quem ama ouvir um violino até na lama.
Porque é que este sonho absurdo a que chamam realidade não me obedece como os outros que trago na cabeça?
Eis a grande raiva! Misturem-na com rosas e chamem-lhe vida.
Vai-te, Poesia!
Deixa-me ver a vida exacta e intolerável neste planeta feito de carne humana a chorar onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos com bandeiras de lume nos olhos, para fabricar sonhos carregados de dinamite de lágrimas.
Vai-te, Poesia!
Não quero cantar. Quero gritar!
Devia morrer-se de outra maneira. Transformarmo-nos em fumo, por exemplo. Ou em nuvens. Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio". E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir a despedida. Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. "Adeus! Adeus!" E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... ) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen... como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...
Choro!
Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro as crianças violadas nos muros da noite úmidos de carne lívida onde as rosas se desgrenham para os cabelos dos charcos.
Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro diante desta mulher que ri com um sol de soluços na boca — no exílio dos Rumos Decepados.
Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro este seqüestro de ir buscar cadáveres ao peso dos poços — onde já nem sequer há lodo para as estrelas descerem arrependidas de céu.
Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro a coragem do último sorriso para o rosto bem-amado naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos com as mãos ainda à procura do eterno na carne de despir, suada de ilusão.
Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do silêncio todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas de miséria...
Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...
Mas não por mim, ouviram? Eu não preciso de lágrimas! Eu não quero lágrimas!
Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!
Deixem-me para aqui, seco, senhor de insônias e de cardos, neste òdio enternecido de chorar em segredo pelos outros à espera daquele Dia em que o meu coração estoire de amor a Terra com as lágrimas públicas de pedra incendiada a correrem-me nas faces — num arrepio de Primavera e de Catástrofe!
Agora, apodrecer. Nas ruas, no suor das mãos amigas dos amigos, na pele dos espelhos... desespero sorrido, carne de sonho público, montras enfeitadas de olhos...
...mas apodrecer.
Bolor a fingir de lua, árvores esquecidas do princípio do mundo... "como estás, estás bem?", o telefone não toca! devorador de astros...
... mas apodrecer.
Sim, apodrecer de pé e mecânico, a rolar pelo mundo nesta bola de vidro, já sem olhos para aguçar peitos e o sol a nascer todos os dias no emprego burocrático de dar razão aos relògios, cada vez mais necessários para as certidões da morte exata,
Sim, apodrecer ...
"...as mãos, a còlera, o frio, as pálpebras, o cabelo a morte, as bandeiras, as lágrimas, a república, o sexo...
... mas apodrecer!
Sujar estrelas.
Viver sempre também cansa
As paisagens não se transformam Não cai neve vermelha Não há flores que voem, A lua não tem olhos Niguém vai pintar olhos à lua Tudo é igual, mecanico e exacto Ainda por cima os homens são os homens Soluçam, bebem riem e digerem sem imaginação.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos discursos do cavaco, guterres e carvalhas guerras, orgulhos em transe automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à morte!
Pois não era mais humano Morrer por um bocadinho De vez em quando E recomeçar depois Achando tudo mais novo?
Ah! Se eu podesse suicidar-me por seis meses Morre em cima dum divã Com a cabeça sobre uma almofada Confiante e sereno por saber Que tu velavas, meu amor do norte.
Quando viessem perguntar por mim Havias de dizer com teu sorriso Onde arde um coração em melodia Matou-se esta manhã Agora não o vou ressuscitar Por uma bagatela
José Gomes Ferreira (com uma pequena actualização minha :-)
Quero voar -mas saem da lama garras de chão que me prendem os tornozelos.
Quero morrer -mas descem das nuvens braços de angústia que me seguram pelos cabelos.
E assim suspenso no clamor da tempestade como um saco de problemas -tapo os olhos com as lágrimas para não ver as algemas...
(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)
Entrei no café com um rio na algibeira e pu-lo no chão, a vê-lo correr da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete nuvens e estrelas e estendi um tapete de flores a concebê-las.
Depois, encostado à mesa, tirei da boca um pássaro a cantar e enfeitei com ele a Natureza das árvores em torno a cheirarem ao luar que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir A melodia sem contorno Deste acaso de existir -onde só procuro a Beleza para me iludir dum destino.
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